Rachel Sheherazade: A Musa e as Gaiolas

Publicado em 25/03/13 às 1h58 por Arthur Vivaqua

Rachel, a musa

Rachel, a musa

Conta-se a história do homem que foi à loja de animais escolher um passarinho.

Chegando lá, um solícito vendedor lhe perguntou:

- Qual é a sua espécie favorita?

Carrancudo, o homem respondeu:

- Qualquer uma, desde que não voe.

Ao que o vendedor, intrigado, replicou:

- Com todo o respeito, senhor, qual é o sentido de comprar um pássaro que não voa?

- Com todo o respeito, amigo, mas se eu quisesse que ele voasse, por que o colocaria numa gaiola?

***

Rachel Sheherazade contrariou o mundo ao decidir voar.

Seria mais cômodo para todos -inclusive para ela – se não o fizesse, afinal de contas, gaiolas de ouro podem ser extremamente confortáveis.

Rachel, porém, parece não se adequar a elas.

Num texto publicado por este democrático RD1, Henrique Brinco, o autor, elege, em tom de ironia, Rachel como a “nova musa do conservadorismo brasileiro”.

Fico a me perguntar se isso é algo ruim, como parece crer o autor.

Afinal de contas, toda musa serve de inspiração para alguém. E há verbo mais belo do que “inspirar”?

“Musa”, desde a Grécia Antiga, é a palavra que designa seres que trazem inspiração artística e científica.

O templo das musas era chamado de Museion, palavra que deu origem ao termo “Museu”, local onde guardamos as mais preciosas lembranças de nossa História.

Pois bem, Rachel é a musa de milhões deste país.

Quanto a palavra “conservadorismo”, alguns ‘progressistas’ têm tentado transformá-la em palavrão.

Não seria, porém, o mundo uma mescla de “renovações conservadas” e “conservatórios renovados”?

Ora, conservar aquilo que é bom não faz mal!

O pessoal das gaiolas, porém, continua bravo com Rachel.

Utilizo, respeitosamente, trecho do texto de Henrique:

“O fato é que Sheherazade não combina com a linha editorial do SBT, sempre marcada pelo entretenimento liberal e pela diversidade. Ela não é unanimidade por lá.”

1° crime de Rachel -> Ter renovado a ‘linha editorial’ do SBT.

2° crime de Rachel -> Não ser uma unanimidade.

Alguém mais percebe a tesoura? Algum ser humano já alcançou essa tal ‘unanimidade’?

Segure as asas, Rachel, pois o autor prossegue:

Sheherazade já se mostrou conservadora nos comentários sobre a retirada de símbolos religiosos nas instituições públicas e nas cédulas do real e sobre a legalização do aborto (tema que, na minha visão, nenhum jornalista tem instrução suficiente para opinar)

Pergunto: Só a opinião dos que têm ‘instrução suficiente’ importa? Estamos na democracia seletiva e ninguém me avisou?

O aborto fala sobre a vida e a morte. Não cabe a nós, seres viventes e mortais, debater sobre ele?

Ou será melhor delegar decisões que dizem respeito a nós e ao mundo que deixaremos aos nossos filhos aos “especialistas” do assunto?

Ao fim de um texto linguisticamente impecável, Henrique Brinco afirma:

Sheherazade fala o que a massa quer ouvir.

Pode haver contradição maior do que esta?

Se Rachel fosse “da massa”, textos como o de Henrique sequer seriam redigidos!

Se Rachel falasse o que “a massa quer ouvir”, a patrulha da gaiola estaria perseguindo outros que não ela.

Destacarei o período a seguir:

Rachel é criticada porque incomoda, e incomoda porque critica.

Em tempos de “politicamente correto”, ela opta apenas pelo que acha correto.

Reflita comigo:

É fácil ser contra Feliciano, afinal, todos os “bonzinhos” o são.

É fácil ser a favor do aborto, afinal nossa própria presidenta o é.

É fácil ser corintiano desde que o time ganhou do Chelsea.

Mas Rachel (Ah, Rachel!) insiste em voar.

E, ao ser tema de textos e teses, prova que seu voo não é vão.

Rachel emite opiniões e, como todas, estas estão sujeitas a aplausos e vaias. O que uma democracia não aceita, porém, é que opiniões sejam tachadas de “atrasada” ou “errada” apenas por não seguir a pauta da moda.

Louvo Rachel por sua coragem.

Louvo também o SBT que, todos que escrevemos sobre TV sabemos, ainda é sinônimo de Silvio Santos. Ele certamente aprova que seus pássaros voem.

Seu SBT Brasil ainda é, em diversos aspectos, um telejornal muito inferior aos concorrentes, mas, ao menos num quesito, ele os goleia: na quantidade de musas.

1 x 0

É para inspirar que nós, os que trabalham com ideias, estamos aqui.

Você pode achar esse texto horrível ou fabuloso e, em ambos os casos, eu terei cumprido meu objetivo ao escrevê-lo.

E, seja lá o que for que tenha achado, você não está “certo” nem “errado”. Você é apenas você.

É assim com Rachel.

Ela poderia dizer o que todos querem, mas insiste em dizer o que quer.

Isso é liberdade. Isso é jornalismo. Isso é democracia. Isso é inspiração.

Qualquer coisa diferente disso é mero cortar de asas…

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A culpa é minha -> Tais como as opiniões de Rachel não refletem as do SBT, as aqui publicadas não refletem a do RD1.