Thiago Fragoso e a polêmica do beijo gay nas novelas

Publicado em 28/04/13 às 7h30 por Henrique Brinco

"Botineras" (2010), da Telefe, exibiu o primeiro beijo gay das telenovelas argentinas

“Botineras” (2010), da Telefe, exibiu o primeiro beijo gay das telenovelas argentinas

Quero propor uma reflexão sobre um tema que tem ganhado bastante espaço na mídia nas últimas semanas: o relacionamento entre LGBTTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). E o assunto deve permanecer em pauta nos próximos meses com a estreia da telenovela “Amor à vida”, de Walcyr Carrasco, que promete trazer vários personagens homossexuais e causar um rebuliço danado por aí.

Em entrevista ao iG Gente, Thiago Fragoso, que viverá um par romântico com Marcello Antony na trama substituta de “Salve Jorge”, foi um dos primeiros a se manifestar sobre a polêmica do beijo gay entre homens nas telenovelas. “A princípio, não é a intenção [mostrar um beijo gay]. A gente quer discutir essa nova família brasileira, porque não acho que a família brasileira, conservadora na sua maioria, queira ver um beijo gay agora. Não sei se é o caso de a gente mostrar”, declarou.

Chega a ser surreal ter que escrever um artigo sobre isso em 2013, mas vamos lá!

Primeiramente, gostaria de deixar claro que não estou escrevendo este artigo para ‘malhar’ o brilhante ator (apesar de achar que ele perdeu uma boa oportunidade de ficar calado). Ele apenas reproduz o que outros já falaram. Quero propor apenas uma reflexão sobre a visão medrosa dos autores, atores e diretores de teledramaturgia das grandes emissoras de TV ao tratar o tema com tantas restrições – o que chega a ser até irônico, porque quem trabalha com dramaturgia, em grande parte, são pessoas homossexuais.

Se vocês soubessem a quantidade de galãs por aí que ‘cortam para o outro lado’, muitas garotas ficariam desiludidas. Aliás, muita coisa que rola POR TRÁS DA MÍDIA não é divulgada. Mas este é um assunto para outro dia! Voltando…

Na televisão é assim: galãs têm que ser viris. Se for para mostrar um gay, que ele seja então espalhafatoso ou trate o parceiro de cena como amigo. Beijo não pode. Aliás, quando discuto sobre este assunto, sempre gosto de citar a célebre frase de Ernest Gaines: “Por que é que, culturalmente, nós nos sentimos mais confortáveis vendo dois homens segurando armas do que dando as mãos?”. Homossexuais só podem viver a sexualidade naquele guetinho, sabe? Longe dos olhos da ‘família ideal do comercial de margarina’.

Sinceramente, já vi conteúdos muito mais controversos no horário nobre. Lembram o quão horripilantes eram os requintes de crueldade dos assassinatos de Flora em ‘A Favorita’ (2008)? E as surras entre mocinhas e vilãs nas novelas ‘Celebridade’ (2003) e ‘Senhora do Destino’ (2004)?  E a mocinha viciada em cocaína de ‘O Clone’ (2001)? E as cenas quentes de sexo em ‘Laços de Família’ (2000)? E os triângulos amorosos de ‘Duas Caras’ (2007) e ‘Passione’ (2010)? Diante do que já foi mostrado, não acho que seja tão chocante ver dois bonitões se beijando, né não? O telespectador não vai mudar de canal por causa disso.

As telenovelas brasileiras já trataram de outros temas inquietantes – como a Síndrome de Down, em ‘Páginas da Vida’ (2006), e a tetraplegia em ‘Viver a Vida’ (2010), de Manoel Carlos – com maestria, veracidade e mantendo a ampla aceitação do público. Telenovela também é arte e a arte é transgressora, tendo como um dos papéis de promover a reflexão sobre o mundo em que vivemos. Não pode se curvar desta forma.

Me pergunto: até quando os produtores brasileiros vão tentar esconder o óbvio do telespectador? Este questionamento também vale, não só para os profissionais da TV Globo, como também para os da TV Record e do SBT, também produtoras de telenovelas em larga escala. O SBT, aliás, após dar um passo importante sobre a questão e exibir um beijo lésbico em ‘Amor & Revolução’ (2011), deu dois passos para trás ao vetar o beijo entre dois homens programado na sinopse original.

As emissoras brasileiras estão atrasadas na abordagem de assuntos LGBTTTs na teledramaturgia. Nos Estados Unidos, por exemplo, já foi até veiculado um seriado inteiramente protagonizado por personagens homens gays: o ‘Queer As Folk’ (2001), exibida pelo canal Showtime. A trama foi um marco na luta pelo direito igualitário entre os norte-americanos durante a década de 2000 porque simplesmente mostrou homossexuais vivendo como pessoas comuns, em suas rotinas diárias. Fez tanto sucesso que foi renovada por cinco temporadas.

Para mim, não fará muita diferença a exibição ou não de um beijo gay na televisão. Tenho trocado cada vez mais as produções brasileiras por produções internacionais (a qualidade caiu muito por aqui…). Entretanto, para aquela ‘little queer’ daqueeela cidadezinha atrasada no interior do Brasil, de família conservadora cristã e que só têm acesso ao conteúdo da TV aberta, um simples beijo gay já representaria um grande avanço. Não precisa ser um beijão cinematográfico, como os de ‘Queer As Folk’, com salivas e línguas salientes. Um simples selinho já diria muita coisa. Seria o símbolo da discussão sobre o tema. Mostraria que é algo normal.

Relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é mais comum do que se imagina. Espero realmente que os envolvidos na produção de ‘Amor à Vida’ e dos canais de televisão em geral reflitam bastante sobre a questão e mudem a forma de pensar. Num momento de Felicianos e Bolsonaros, será uma boa oportunidade de ensinar valores como o respeito, a diversidade e o amor ao próximo ao povo brasileiro.

Vou ficar na torcida, Walcyr Carrasco! De verdade. Mesmo que você seja censurado, como aconteceu com a Glória Perez em ‘América’ (2005), escreva a cena. Quem sabe rola desta vez. Não desista! Ah, e se for mesmo fazer, não anuncie por aí em matérias no ‘Fantástico’, ok? Faça de surpresa, para não gerar ainda mais polêmica. Acredito em você. E desejo todo o sucesso do mundo para a sua telenovela.

Encerro este artigo recomendando o excelente vídeo ‘Homofobia – Não Faz Sentido’, do videomaker Felipe Neto em seu canal no YouTube. Ele conseguiu, de forma simples e direta, daquele jeitão escrachado que só ele tem, discorrer sobre o tabu da homossexualidade e passar uma mensagem de diversidade e aceitação para milhares de jovens brasileiros.


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NOTA DE PESAR: No momento em que escrevia este artigo que fala sobre aceitação e amor, por ironia do destino, recebi a notícia da morte cerebral da colega jornalista baiana Rafaela Dantas, com quem tive a honra de conviver diariamente na faculdade e compartilhando medos e sonhos. Ela, como muitos seres humanos inseridos numa sociedade mesquinha e hipócrita, decidiu encerrar com a própria vida. Meus sinceros sentimentos aos familiares. Que você encontre a paz, Rafa. Um dia a gente se esbarra por aí, falô?! ;)

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Henrique Brinco estudou jornalismo no Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge-BA), de Salvador. Escreve sobre mídia e entretenimento há 6 anos e, por 3 anos, foi editor do Portal PS – tendo seus textos reproduzidos em diversos sites e fóruns sobre televisão.

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